O Choque de Ormuz, Descarbonização e os Minerais da América do Sul

Poder 360, 20 de maio de 2026

Guerra no Golfo acelera a corrida por terras raras e destaca o potencial latino-americano

O articulista afirma que a riqueza natural pode tornar-se tanto uma bênção quanto uma maldição.

A guerra no Golfo Pérsico e o fechamento do Canal de Ormuz terão efeitos duradouros. Entre estes, mesmo que o carvão tenha sido utilizado como substituto parcial do petróleo e do gás – conforme apontado por ex-colegas meus do Banco Mundial -, a elevação do prêmio da segurança energética para os países tende a reforçar o “caminho para a descarbonização”. Com a busca de fontes de energia renovável, como Elbia Gannoum e eu abordamos recentemente. Com isto, o uso crescente de minerais críticos e terras raras no mundo será reforçado.

Por um lado, é provável que os governos aumentem reservas estratégicas de petróleo e gás natural, a fim de reduzir a dependência do vulnerável mercado à vista, mas isto constitui um movimento singular e não-repetitivo. Por outro, a volatilidade e os preços elevados do diesel para uso industrial estão reforçando a tendência rumo à eletrificação em setores como a mineração, visando reduzir a dependência do petróleo.

Além de petróleo e gás, o risco de escassez crônica de alguns minerais críticos foi outra decorrência do fechamento do Estreito de Ormuz. Isto levará a mudanças de longo prazo no que diz respeito à obtenção de matérias-primas. A obstrução de rotas marítimas fundamentais forçou uma reavaliação global das cadeias de suprimentos de minerais críticos, incluindo os elementos de terras raras, no mínimo em direção a diversificação de fontes e observação de riscos geopolíticos.

A interrupção causou problemas na obtenção de matérias-primas para semicondutores, painéis solares, alumínio e grafite. Adicionalmente, a interrupção no fornecimento de minerais críticos refinados e de subprodutos — como hélio e enxofre — impactou diretamente a produção de ativos militares e tecnológicos avançados. A demanda crescente por minerais críticos e terras raras vem não apenas da matriz de energia renovável, mas de toda a gama tecnológica de fronteira e de defesa.

A riqueza mineral da América do Sul — assim como a da África — ganhou destaque. Segundo dados de relatório recente do JPMorgan, o Chile e o Peru, em conjunto, têm sido a fonte de aproximadamente 40% da produção global de cobre e detêm 35% das reservas mundiais conhecidas. Argentina, Bolívia e Chile constituem o “triângulo do lítio”, detendo cerca de 50% dos recursos globais desse mineral. A América Latina detém cerca de 16% das reservas globais de níquel e 23% das reservas de terras-raras. O Brasil possui as segundas maiores reservas de terras-raras do mundo e é, atualmente, a origem de aproximadamente 90% da produção global de nióbio.

Um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) de março, preparado por João Ayres e Luciana Juvenal, apresenta um mapa dos minerais críticos na América Latina e no Caribe. Eles também realizaram um exercício ilustrativo de valoração, multiplicando o volume das reservas conhecidas pelos preços internacionais atuais, a fim de dimensionar a escala dos ativos minerais críticos na região. Por exemplo:

  • As reservas de cobre do Chile seriam avaliadas em mais de 500% do PIB e em mais de 300% do PIB no Peru.
  • O valor estimado das reservas brasileiras de terras-raras corresponderia a quase o dobro do PIB do país.
  • No “triângulo do lítio”, as reservas do Chile valeriam 210% do PIB e 50% no caso da Argentina.
  • Guatemala e Colômbia também são potencialmente ricas em termos de níquel.

São números impressionantes, mesmo considerando que ainda se situam abaixo das valorações das reservas de petróleo na Guiana e no Suriname, as quais somam 35 e 42 vezes, respectivamente, os seus PIBs.

Os autores observam que esses números são puramente ilustrativos, pois pressupõem que todas as reservas poderiam ser extraídas e vendidas imediatamente; na realidade, porém, a extração exige décadas de esforço técnico, investimentos e aprovações regulatórias complexas. E, de fato, o cenário mineral da América do Sul revela uma grande lacuna entre a dotação de recursos e a produção efetiva. O ponto a ser retido é o… potencial!

A riqueza natural pode tornar-se tanto uma bênção quanto uma maldição, como sabemos. Instituições sólidas, governança de qualidade, infraestrutura adequada e a destinação apropriada das receitas serão os fatores decisivos para a efetiva apropriação dos benefícios. Os ciclos de auge e colapso que caracterizaram a história das commodities na região por mais de um século devem ser evitados.

Em particular, é preciso ir além do puro extrativismo. Não basta ter e explorar reservas; pelo menos parte da cadeia de valor a jusante, onde cresce a agregação de valor, tem que ser internalizada.

Como tem feito a China, que atualmente lidera o refino de 19 dos 20 minerais estratégicos mais relevantes, com participação média de 70% no mercado global. Mais de 90% do processamento mundial de gálio e magnésio ocorre no país, além de quase 80% do grafite natural, importando minerais do resto do mundo. Enquanto isso, o Brasil, por exemplo, ainda desenvolve sua capacidade de processamento e enfrenta o desafio de converter suas vastas reservas em produtos refinados e industrializados, etapa que exige investimentos em tecnologia, infraestrutura e políticas públicas voltadas à agregação de valor.

Vejam o paradoxo: o Brasil é um dos maiores exportadores de cobre, alumínio (bauxita), manganês, nióbio e vanádio, enquanto continua dependente da importação de produtos industrializados como folhas de alumínio e derivados de lítio, o que revela uma assimetria profunda entre seu potencial geológico e seu nível de industrialização.

Deixem-me destacar o PlanGeo (Plano de Geologia do Brasil) como instrumento de fomento ao conhecimento geológico e à pesquisa. É preciso que seja acompanhado de respostas a como o país irá converter esse conhecimento em plantas de beneficiamento, em patentes, em produtos de alto valor agregado. Além das atividades de upstream (tais como exploração, mineração e concentração), os processos de midstream (refino) e downstream (incluindo a produção de cátodos para baterias, ímãs permanentes e produtos de uso final) são igualmente importantes para maximizar a captura de valor.

A crise no Estreito de Ormuz validou simultaneamente a importância global da América do Sul como fornecedora alternativa de commodities e expôs a fragilidade estrutural de suas cadeias de dependência de insumos.

Para concluir, vale ressaltar que as economias da região têm a chance de explorar as oportunidades de colaboração abertas por ambos os lados da disputa geopolítica entre os Estados Unidos, China e Europa, usando como barganha alguma condicionalidade de que haja evolução na corrente local de agregação de valor.

Otaviano Canuto, 70 anos, foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Também foi secretário de Assuntos Internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp. Atualmente, é integrante sênior do Policy Center for the New South, integrante sênior não-residente da Brookings Institution, distinguished visiting sênior fellow e professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University e professor afiliado na Universidade Mohammed 6º Polytechnique.

 

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