“Super El Niño”: a Urgência da Adaptação Climática e a Oportunidade de Desenvolvimento

Pedro Henrique de Christo e Otaviano Canuto

PODER 360, 25 de julho de 2026

À medida que se intensifica, o El Niño chega causando apreensão em todos nós. A lentidão da transição energética e a continuidade de emissões de carbono já nos levou a uma trajetória de aumento da temperatura média do ar em 2,8°C acima dos níveis pré-industriais (1850) — superando em muito o limite de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015.

O ritmo recente de elevação superou todas as projeções feitas em meados da década passada. Subimos de 300ppm (partes por milhão de CO2), nível que durou pelos 800 mil anos anteriores à revolução industrial, para 430ppm em 2026. Este é um nível similar ao da era do Plioceno entre 3 e 4,5 milhões de anos atrás quando a temperatura global era em torno de 4C mais alta do que nos níveis pré-industriais.

As temperaturas dos oceanos, maiores reguladores do clima global, também estão subindo, intensificando os impactos e a probabilidade de um “Super El Niño” — com temperaturas no Pacífico atingindo 2°C ou mais acima da média —, o que desencadeia eventos extremos, como ondas de calor intensas, tempestades e chuvas torrenciais em todo o mundo.

Esse aquecimento provoca uma volatilidade hidroclimática extrema, aumentando a intensidade e a frequência de eventos climáticos extremos. Entre 1970 e 1980, ocorreram cerca de 100 desses eventos anualmente em todo o mundo; de 2020 a 2025, esse número chegou a aproximadamente 400. Agora, enquanto vemos a Europa sofrer com sucessivas ondas de calor recorde, países tropicais como o Brasil — onde, entre 2020 e 2023, houve um aumento de 223% em eventos extremos em comparação com toda a década de 1990— precisam se preparar, dada a sua vulnerabilidade mais crítica relacionada à localização geográfica.

Para proteger a população global, os ecossistemas e a economia, não basta mais apenas promover a regeneração ambiental e a transição energética. Claro que continuamos precisando acabar com o desmatamento e acelerar a substituição da exploração e o uso de petróleo por energia renovável. O desenvolvimento e o aprendizado tecnológico já tornaram a energia renovável mais barata na produção.

A energia solar especialmente já recebe mais investimentos privados do que os combustíveis fósseis desde 2023. A crise climática não é apenas o maior risco existencial da história da humanidade, sendo também um péssimo negócio pelo uso de energias efetivamente mais caras e que causam impactos trilionários para a economia global, mais precisamente em torno de USD 18,5 trilhões desde o ano 2000 e com a projeção de chegar até USD 32 trilhões em 2050. Porém, produzir apenas a energia limpa não basta para transformar. A transição exigirá investimentos complementares massivos em infraestrutura, especialmente em redes de transmissão, modernização dos sistemas elétricos, digitalização, flexibilidade operacional e armazenamento de energia.

O ponto aqui é a necessidade de, simultaneamente, trabalhar intensamente na adaptação para construir a resiliência ao novo clima enquanto avançamos decisivamente na transição energética para energias limpas. Também precisamos continuar a recuperação ambiental mais para fins de reequilíbrio dos ecossistemas, o que é importantíssimo. Entretanto, para estancar e depois diminuir a concentração de GHG-Gases de Efeito Estufa hoje só a transição energética produz resultados reais devido à degradação de ecossistemas que já em muitos casos emitem mais carbono do que absorvem – como visto inclusive na região leste da Amazônia. As consequências da crise climática e sua interação com fenômenos como “El Niño” já são a nossa nova realidade.

Os países em desenvolvimento são mais vulneráveis ​​devido a sua localização predominantemente tropical, com áreas onde as flutuações na disponibilidade de água causam graves interrupções no abastecimento urbano e industrial, na agricultura e na geração hidrelétrica, para aqueles que dependem dessa fonte como o Brasil, Peru e Equador na América do Sul. Nas cidades — onde vive a maioria da população mundial, pela primeira vez na história —, a crise climática já é uma realidade plena. Entre 2015 e 2024, mais de 70% dessas cidades foram atingidas por eventos extremos, com a alternância sucessiva de inundações, tempestades, secas e ondas de calor — um fenômeno conhecido como “chicotada climática” (climate whiplash).

Como consequência, a crise climática se intensifica com eventos meteorológicos extremos que, ao atingirem territórios despreparados, devastam vidas — como se viu desde a Amazônia até a catástrofe no Rio Grande do Sul, zona de clima temperado no sul do Brasil. Durante o fenômeno El Niño de 2024 — cujo custo estimado foi de US$ 3 trilhões para o mundo e entre US$ 300 bilhões e US$ 500 bilhões para o Brasil—, cidades amazônicas, onde vivem 78,5% da população da região, tiveram seus sistemas de água e saneamento danificados e comunidades isoladas à medida que os rios secavam.

A logística fluvial entrou em colapso, impedindo a entrega de alimentos, medicamentos e água potável, afetando 770 mil pessoas e causando prejuízos de R$ 3,2 bilhões apenas no estado do Amazonas. A qualidade do ar na região e além dela piorou devido às queimadas, aumentando a incidência de doenças respiratórias. Paralelamente, o estado do Rio Grande do Sul enfrentou chuvas torrenciais históricas que deixaram 155 mil pessoas desalojadas e afetaram 1,3 milhão de habitantes em 388 municípios, 78% do total do estado — demonstrando a fragilidade do poder público diante do risco de colapso sistêmico.

Assim como o restante do país, as cidades do Sul e da Amazônia precisam urgentemente abandonar a atual mentalidade reativa e transitar para uma postura de antecipação, adaptação e resiliência por meio do urbanismo climático. Essa estratégia interdisciplinar integra modelos hidroclimáticos preditivos — variando da escala de satélite até o nível do metro cúbico — em modelos de gêmeos digitais que permitem a modelagem dos cenários em 4D (x, y, z e t para o tempo), tanto para avaliar riscos como testar projetos de resiliência que funcionem de maneira integrada a novos sistemas de governança e políticas públicas inclusivas. Essa abordagem apresenta uma relação custo-benefício de cinco a sete vezes superior, pois combina infraestrutura cinza com soluções baseadas na natureza e gestão urbana inteligente; utiliza dados meteorológicos para coordenar o controle hídrico junto a vegetação para drenagem e conforto térmico, ao mesmo tempo em que incorpora a geração de energia limpa em suas estruturas multifuncionais. Não podemos enfrentar os desafios climáticos do século XXI com o urbanismo e a infraestrutura do século XX e instituições do século XIX.

Embora essa grande transformação urbana e estrutural voltada à adaptação e à resiliência seja uma questão de sobrevivência e muito mais vantajosa economicamente do que o custo da inação, é fato que ela gerará pressões fiscais consideráveis ​​sobre governos de todas as esferas. Isso exigirá não apenas o uso intensivo de modelagem 4D para testar projetos e realizar intervenções cirúrgicas — reduzindo margens de erro no desempenho dos projetos —, mas também políticas econômicas capazes de financiar esse esforço, inédito em escala global, com os investimentos adequados e oportunos.

A transição dos combustíveis fósseis para energias renováveis está sendo prejudicada pelo retrocesso na política energética de uma economia tão grande quanto a dos EUA. Esperamos que seja temporário e que se evite a fragmentação do mundo em economias fósseis e solares-eólicas. Há uma potencial “Armadilha de Tucídides“, descrita pelo filósofo grego de mesmo nome no século V A.C. ao analisar a Guerra do Peloponeso entre Esparta e Atenas, onde o poder dominante e o poder ascendente entram em guerra pela supremacia geopolítica de seus contextos – algo visto na maioria dos casos históricos do século XVI para cá. Temos que garantir nossa sobrevivência mediante uma governança funcional dos bens comuns. Essa definição é decisiva para o destino da humanidade do século XXI em diante.

O “Super El Niño” que se forma atualmente oferece uma amostra viva da crescente gravidade da nova realidade climática. A urgência do desafio inevitável da adaptação e resiliência é de natureza existencial, mas também oferece uma oportunidade de mudar o rumo para superar a crise climática ao abrir o caminho para acoplar a transição energética na necessária transformação urbana e estrutural enquanto também realizamos a recuperação ambiental.

Para o Brasil, essa decisão estratégica de legado intergeracional tem a capacidade de abrir novas fronteiras e a criação de capital inteligente para a liderança geopolítica e para o comércio de produtos e serviços verdes (o terceiro setor econômico que mais cresce no mundo) enquanto serve de vetor decisivo para que finalmente nos tornemos um país desenvolvido por meio de um Novo Acordo Verde próprio nosso. Para o mundo, transformando-nos em uma sociedade cooperativa, ainda que com interesses concorrentes, capaz de sobreviver e prosperar onde atuamos com protagonismo intermediador entre as duas grandes potências. Esse precisa ser o nosso “Sonho Brasileiro”, sobreviver criando um mundo melhor, fazendo o bem para a natureza e o clima enquanto nos tornamos ricos. Não podemos esperar, mais do que nunca o futuro é agora.

 

Pedro Henrique de Christo, 43 anos, é urbanista climático, polímata e mestre em políticas públicas pela universidade de Harvard (2011) onde sua tese sobre construção de estados à partir das suas áreas mais vulneráveis, no caso as favelas no Rio de Janeiro, virou aula (2012). Um dos criadores do urbanismo climático e da tecnologia de modelagem hidroclimática 4D em gêmeos digitais é o autor de “ClimateUrbanism” (IDB, 2025) e “Digital Agora: a physical-digital space for participatorydemocracy” (AIA, 2016). É presidente do NAVE-Novo Acordo Verde, fundador do escritório interdisciplinar +D, com projetos em cinco continentes, e da empresa 4D.

Otaviano Canuto, 70 anos, foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Também foi secretário de Assuntos Internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp. Atualmente, é integrante sênior do Policy Center for the New South, integrante sênior não-residente da Brookings Institution, distinguishedvisiting sênior fellow e professor na Elliott SchoolofInternational Affairs da George Washington University e professor afiliado na Universidade Mohammed 6º Polytechnique.

 

Get the latest articles directly into your mail box!

You can choose to receive the latest articles either in English, Portuguese or both. Please note:  the confirmation email you will receive may arrive in your Spam or Promotion folder.

Lists*

Loading
Facebook
Twitter
LinkedIn

Leave a Reply