Os desequilíbrios globais estão de volta

Otaviano Canuto e Diogo Ramos Coelho

Poder 360, 30 de maio de 2026

Desequilíbrios globais voltaram ao centro do debate econômico internacional – e por razões robustas. Historicamente, grandes desequilíbrios externos estiveram associados a crises financeiras, volatilidade cambial, reversões abruptas de fluxos de capitais e tensões geopolíticas. No centro desse debate está a relação comercial e financeira entre EUA, China e o restante do mundo.

Para entender o problema, é preciso começar por uma ideia simples: quando um país importa mais do que exporta, precisa financiar essa diferença com recursos vindos do exterior. Em outras palavras, déficits externos permitem que uma economia consuma e invista mais do que conseguiria apenas com sua própria poupança doméstica. Comércio e finanças estão profundamente interligados.

Nos anos 2000, houve uma espécie de “match” da economia global – como no Tinder. A China consolidou-se como principal economia exportadora do mundo, enquanto os EUA tornaram-se o principal importador. O superávit em conta corrente da China (que abrange comércio, renda e serviços) passou de aproximadamente US$ 17 bilhões em 2001 para cerca de US$ 420 bilhões em 2008. No mesmo período, o déficit em conta corrente americano passou de cerca de US$ 394 bilhões para aproximadamente US$ 696 bilhões.

Esse “match” também ocorria pelo lado financeiro. Com o crescimento das exportações, países superavitários – China, Japão, Alemanha e exportadores de petróleo – passaram a acumular grandes reservas em dólares. Essa poupança precisava ser investida em algum lugar. Em larga medida, ela retornou aos próprios EUA, sobretudo na forma de compra de títulos da dívida pública americana, considerados os ativos seguros.

Os EUA possuem uma vantagem singular: por emitirem a principal moeda de reserva internacional (o dólar), conseguem tomar empréstimos no resto do mundo em sua própria moeda. A elevada demanda global por dólares e títulos americanos permite ao país financiar déficits externos persistentes com juros baixos. Isso estimulou crédito barato, expansão do endividamento das famílias e valorização acelerada do mercado imobiliário americano.

Os limites desse modelo ficaram evidentes em 2008. A combinação entre excesso de liquidez global, crédito barato e expansão das hipotecas alimentou uma bolha imobiliária nos EUA.

O ingresso de capital externo, porém, não foi o único fator por trás da expansão financeira daquele período. O BIS (Banco de Compensações Internacionais) chamou atenção para o papel desempenhado por bancos europeus que operavam nos EUA. Essas instituições captavam recursos de curto prazo no país e os direcionavam para a compra de ativos ligados ao mercado imobiliário local. Parte relevante desses fluxos sequer aparecia claramente no balanço de pagamentos, porque os empréstimos e captações das instituições financeiras acabavam se compensando contabilmente.

Quando a bolha imobiliária estourou, ficou evidente o grau de interconexão entre os sistemas financeiro e comercial globais. A crise rapidamente se espalhou pelo mundo por meio dos mercados bancários, dos fluxos de capitais e da perda generalizada de liquidez e confiança. Durante algum tempo, acreditou-se que esses desequilíbrios haviam sido parcialmente corrigidos. Mas o debate voltou com força nos últimos anos.

Em palestra no Federal Reserve Bank de Atlanta, no dia 18 de maio deste ano, a economista Gita Gopinath, professora de Harvard e ex-primeira diretora geral adjunta e economista-chefe do FMI, argumentou que a economia internacional atravessa nova onda de desequilíbrios globais. Em 2025, o déficit em conta corrente dos EUA aproximou-se de 3,6% do PIB – cerca de US$ 1,1 trilhão – enquanto o superávit em conta corrente chinês chegou a aproximadamente 3,7% do PIB, equivalente a cerca de US$ 700 bilhões.

Desta vez, porém, o problema não é principalmente comercial. Ele envolve a interação entre déficit fiscal americano, concentração financeira, valorização de ativos, fluxos globais de capital e fragmentação geopolítica.

Nos EUA, a principal fragilidade já não está no endividamento das famílias ou no mercado imobiliário, como antes da crise de 2008. O problema deslocou-se para o forte aumento do déficit fiscal e para a crescente dependência do sistema financeiro internacional em relação aos ativos americanos.

Mesmo acumulando déficits públicos elevados, os EUA continuam atraindo enormes volumes de capital externo. Investidores do mundo inteiro seguem comprando títulos da dívida pública americana, ações e outros ativos financeiros dos EUA porque ainda os consideram os instrumentos mais seguros e líquidos da economia global.

Dados compilados por Martin Wolf, do Financial Times, mostram que os passivos externos líquidos dos EUA – isto é, os ativos americanos detidos por estrangeiros menos os ativos externos detidos pelos próprios americanos – alcançaram cerca de 24% do PIB mundial. Em termos simples, isso significa que uma parcela significativa da poupança global está aplicada nos EUA.

Há problemas à vista. O FMI projeta déficit fiscal americano próximo de 7,5% do PIB em 2026 – cerca de US$ 2,5 trilhões – enquanto a dívida bruta federal supera US$ 39 trilhões, acima de 120% do PIB. Ao mesmo tempo, o mercado acionário americano tornou-se altamente dependente de algumas empresas de tecnologia e inteligência artificial. As chamadas “7 Magníficas” já representam mais de 30% do índice S&P 500.

Essa elevada exposição vem associada a riscos. Existe a possibilidade de que boa parte da hipervalorização acionária americana seja uma “bolha”. Uma correção abrupta nas bolsas americanas ou tensões no mercado de títulos públicos dos EUA deixariam rapidamente de ser apenas um problema doméstico, transmitindo choques financeiros, volatilidade cambial e problemas de liquidez para o restante da economia global.

Do lado chinês, o problema também mudou de natureza. Durante décadas, o crescimento foi sustentado por investimentos maciços em infraestrutura, expansão imobiliária e exportações. O investimento total chegou a superar 40% do PIB durante boa parte das últimas três décadas. Ao mesmo tempo, o consumo das famílias permanece relativamente baixo, em torno de 40% do PIB, contra mais de 65% nos EUA. Como consequência, a China mantém níveis excepcionalmente elevados de poupança doméstica.

Durante anos, grande parte dessa poupança foi absorvida pelo setor imobiliário, que chegou a representar entre 25% e 30% da economia chinesa. Com o enfraquecimento recente desse setor, parcela crescente dos recursos passou a ser direcionada para expansão industrial e manufatureira, especialmente em setores estratégicos, como veículos elétricos, baterias, semicondutores, robótica e inteligência artificial.

O resultado tem sido uma economia com elevada capacidade produtiva e demanda interna insuficiente, reforçando a dependência de mercados externos para absorver parcela importante da produção. Não à toa, em 2025 o superávit chinês no comércio de bens alcançou aproximadamente US$ 1,2 trilhão. Esse “segundo choque chinês” está se dando em setores de alto valor agregado, diferentemente das manufaturas tradicionais do “primeiro choque chinês” dos anos 1990 e 2000.

Os desequilíbrios atuais passaram a interagir com rivalidade geopolítica, competição industrial e fragmentação econômica. Nos EUA, o governo de Donald Trump busca reduzir o déficit comercial por meio de tarifas, subsídios à exportação e estímulo à reindustrialização. Ao mesmo tempo, mantém déficits fiscais elevados e forte dependência de capital externo, o que limita a capacidade de reduzir estruturalmente os desequilíbrios externos.

A rivalidade entre EUA e China também ampliou disputas em torno de tecnologia, cadeias produtivas e segurança econômica. Paralelamente, conflitos no Leste Europeu e no Golfo Pérsico aumentam incertezas sobre energia, inflação e comércio. Em momentos de tensão, investidores tendem a buscar ativos considerados seguros, reforçando ainda mais a demanda por dólares e títulos públicos americanos.

A Europa, por sua vez, ainda não possui mercados financeiros suficientemente integrados para oferecer alternativa ao dólar como principal destino da poupança global. Na China, o elevado nível de poupança precaucionaria, o consumo doméstico relativamente baixo e o envelhecimento populacional continuam reforçando a dependência de investimento, indústria e exportações para sustentar o crescimento econômico.

Em março de 2026, Gita Gopinath e os economistas Chong-En Bai, Hélène Rey e Axel Weber apresentaram relatório preparado para a presidência francesa do G7 sobre os riscos associados aos desequilíbrios globais contemporâneos. O documento apontava um caminho para um ajuste ordenado: redução gradual dos déficits fiscais americanos; reforço da estabilidade financeira dos EUA; estímulo ao consumo doméstico na China; aprofundamento da integração financeira europeia; e preservação da independência dos bancos centrais.

O problema é que a economia mundial parece cada vez menos capaz de produzir o grau de coordenação política necessário para implementar essas soluções. O mundo permanece profundamente integrado financeiramente: o dólar continua dominante, os fluxos de capital seguem gigantescos e os mercados continuam interdependentes. Mas a rivalidade geopolítica, o protecionismo, a competição tecnológica e a fragmentação estratégica corroem precisamente os mecanismos de cooperação que ajudaram a estabilizar crises anteriores. Talvez essa seja a principal tensão da economia internacional contemporânea: a globalização financeira sobrevive, mas a convergência política que sustentou a ordem econômica das últimas décadas parece cada vez mais frágil.

Otaviano Canuto, 70 anos, foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Também foi secretário de Assuntos Internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp. Atualmente, é integrante sênior do Policy Center for the New South, integrante sênior não-residente da Brookings Institution, distinguished visiting sênior fellow e professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University e professor afiliado na Universidade Mohammed 6º Polytechnique.

Diogo Ramos Coelho, 39 anos, é diplomata de carreira desde 2010 e autor dos livros “Mundo Fraturado: reflexões sobre a crise da ordem liberal” (Editora Matrix, 2024) e “Mundo em Crise: a história da crise financeira, seus impactos nas relações internacionais e os atuais desafios” (Editora UnB, 2014). Foi assessor internacional da ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Trabalhou nas embaixadas do Brasil em Washington e na Cidade do México, e no FMI.

 

 

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