‘Para onde vão os preços do petróleo?’, questiona Otaviano Canuto

 

A subida dos preços domésticos de derivados de petróleo, que serviu como estopim para a greve dos caminhoneiros, refletiu o repasse pela Petrobras da evolução internacional de seus preços, em conjunto com a desvalorização do real perante o dólar que acompanhou as turbulências em mercados emergentes em maio. Como a relação entre preços domésticos e internacionais continuará relevante, cabe perscrutar para onde os últimos tendem a ir.

Preços do petróleo mais do que dobraram depois de um piso no 1º trimestre de 2016, com as cotações do Brent –referência internacional – atingindo US$ 80 o barril em maio. A elevação de preços em mais de 65% desde junho do ano passado refletiu as trajetórias de sua demanda e oferta.

Por um lado, a robustez do crescimento econômico mundial aumentou em 1,6 milhão de barris o consumo diário de petróleo no 1º trimestre deste ano em relação a um ano antes. Do lado da oferta, esteve vigente o acordo firmado por membros e não-membros da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), no final de 2016, de reduzir sua produção conjunta em 1,8 milhão de barris por dia até o fim desse ano. A queda na oferta acabou maior que a planejada por conta da Venezuela, onde a produção caiu em quase 1 milhão de barris diários desde 2016.

A retração na oferta daqueles países foi compensada por outras fontes, inclusive o petróleo de xisto nos EUA. Em abril, a produção deste alcançou o recorde de 10,3 milhões de barris diários, tornando-se o 2º maior produtor mundial de petróleo bruto depois da Rússia. Mesmo assim, o descompasso global entre oferta e demanda se manifestou na queda de estoques de petróleo dos países da OCDE para seus menores níveis nos últimos 3 anos.

Fatores geopolíticos também pesaram, com mercados financeiros respondendo ao anúncio norte-americano de reintrodução de sanções ao Irã, em a partir de novembro. Prêmios de risco mais altos se expressaram nos preços.

E para onde tais preços tendem a ir? No caso das sanções unilaterais dos EUA sobre o Irã, não se pode antecipar plenamente quais serão seus efeitos concretos sobre as exportações iranianas. Caso outros clientes –China, Índia, Turquia e outros– consigam pagar por petróleo iraniano sem recorrer a bancos que necessitam de correspondência bancária nos EUA e, portanto, possam evadir-se das sanções, o impacto destas sobre as vendas iranianas será mitigado.

Por seu turno, a disponibilidade global de petróleo também continuará se beneficiando de aumentos esperados na produção no Canadá e nos EUA, bem como de uma flexibilização das restrições de oferta, com o aumento gradual da produção, na Arábia Saudita e em outros grandes produtores, esperado para a 2ª metade do ano. Não por acaso, indícios nessa direção por parte dos ministros de energia árabe e russo derrubaram preços nos últimos dias de maio, revertendo a alta do mês.

Contudo, mesmo que a próxima reunião da Opep em Viena em 22 de junho aponte para a suavização da restrição de oferta, a baixa capacidade instalada fora de Arábia Saudita, Rússia, Emirados Árabes e Kuwait, bem como riscos de declínios adicionais na produção venezuelana, sugerem elevação apenas gradual da produção e preços do barril mantendo-se acima de 70 dólares o barril. De todo modo, os atuais preços futuros do barril para o 2º semestre têm flutuado em níveis abaixo do pico de maio.

E no Brasil? O governo anunciou a manutenção do nexo externo-doméstico nos preços, mesmo com eventuais alterações na periodicidade de reajustes. O programa de subvenção criado pelo governo para encerrar a greve dos caminhoneiros será absorvido no âmbito fiscal.

O que nos remete ao outro determinante da subida de preços domésticos de derivados em maio: a desvalorização cambial. Por um lado, o quadro nas contas externas brasileiras vem dando margem de manobra ao país bem mais ampla que em casos como o da Argentina e da Turquia na resposta à turbulência em mercados emergentes, mesmo sem reversão da desvalorização do real do mês.

Afinal, o deficit do balanço de pagamentos em conta corrente declinou nos últimos anos e é menor que o ingresso de investimentos diretos. Reservas externas abundantes têm sido resguardadas com a oferta de swaps cambiais pagos em moeda local como instrumento de hedge para agentes privados, como se viu nas últimas semanas, contrarrestando pressões de desvalorização cambial. Adicionalmente, a exposição ao dólar na dívida pública e privada também está mais baixa.

Por outro, na ausência de reformas estruturais que mudem a trajetória fiscal em curso, não há espaço para manobras voluntariosas de absorção de impactos das mudanças internacionais de preços de petróleo. Melhor torcer por resultados favoráveis em Viena, no dia 22 de junho.

Publicado originalmente por Poder 360

 

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